José Henrique de Freitas Santos - UFBA
Modernizar o passado
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos[1]
Projetar um olhar analítico sobre o vasto corpus da Música (Popular) Brasileira, ainda que para estabelecer um recorte como neste caso, é defrontar-se com uma produção músico-cultural, a qual, mesmo possuindo em sua História expressões mundialmente consagradas como a Bossa Nova e, principalmente, o Tropicalismo, está sempre disposta a romper o status quo e inovar.
Apesar do entretenimento ser uma das premissas da música, as idéias e os discursos que esta pode engendrar, (re)produzir e projetar sobre o grande público, tornam-na um importante produto cultural. As imagens de assimilação voluntária, ou não, que traz consigo, bem como seu vasto alcance através das mass media, permitem que ela seja também um poderoso elemento dentro das discussões identitárias.
A certeza desta força nos anos 60 e a sua meticulosa exploração, traduziu-se numa distinta marca na História Mundial. No Brasil, os jovens incendiados pelas vozes de figuras mítico-músico-pop[2] do cenário nacional e global, como John Lennon, Hendrix, Caetano, Gil, atiravam-se contra a uniformização das estruturas de dominação fossem estas sócio-políticas ou estéticas.
Também na contemporaneidade, é preciso atentar para o surgimento de determinadas produções da MPB que se fazem singulares pela influência que exercem no imaginário coletivo, a exemplo do Mangue Beat, que se apresentou, a priori como uma novidade musical pop, mas ultrapassou os limites desta intenção inicial.
O Movimento Mangue Beat surgiu no início da década de 90 a partir da interação entre as bandas Loustal[3], Lamento Negro, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A[4] com o intuito de gerar uma conscientização coletiva que possibilitasse mudanças positivas na situação sócio-cultural vigente no Recife.
Chico Science foi um dos idealizadores do Movimento Mangue tornando-se principal representante deste ao fundir-se posteriormente a Nação Zumbi formando a banda Chico Science & Nação Zumbi. Chico é ainda na atualidade, apesar de seu precoce falecimento, cosiderado pelas bandas pernambucanas como um verdadeiro ícone pela sua liderança, suas singulares letras de música e principalmente pelo diálogo que conseguiu estabelecer com a mídia e o público. Segundo ele, o Movimento Mangue Beat é uma redescoberta, uma releitura de ritmos regionais, de conceitos, idéias e elementos pops brasileiros, tentando universalizar tudo, com o intuito de mostrar e criar uma cena para o mundo, conectar o Brasil com o cenário pop mundial[5].
Influenciados pela multiplicidade de ritmos que engloba funk, samba, coco, ska, rock, maracatu, reggae entre outros, bem como por uma literatura completamente engajada a sua realidade de nordestinos e habitantes de um espaço urbano degradado, o Recife, os mangueboys[6] irão eleger um amálgama sonoro regido pela batida forte do maracatu – o Beat – como sua marca, assessorados por letras[7] que extrapolam o caráter lúdico para assumir uma postura identitária e por vezes até polêmica.
Esta é que foi minha Sorbonne: a lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo. Seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homem e meio bichos.[8]
O relato do sociólogo/escritor Josué de Castro no Prefácio do seu livro Homens e Caranguejos publicado em 1967, constata a estranha mímese dos homens se assemelhando em tudo aos caranguejos: arrastando-se, agachando-se, andando para trás e habitando o mangue. Esta afirmação de Castro atesta a importância desta obra para os conceitos elaborados mais tarde por Science, por tratar, dentre outros, de um elemento básico para a existência do Movimento Mangue Beat: os homens-caranguejos. Science afirma que ao ler este livro e deparar-se com a saga de João Paulo, garoto nascido nos mangues do Recife, que morrerá neles, atrelado fatalmente ao ciclo do caranguejo, assimila as idéias contida nesta literatura árida que se confunde ao contexto social em que vive. De acordo com Josué de Castro o ciclo do caranguejo é o cárcere intransponível das grades da lama dos mangues onde uma vez nascido dentro desta prisão, jamais o indivíduo conseguirá se livrar de seu destino de homem-caranguejo capturando e se alimentando dos caranguejos do mangue, para quando morrer também servir de alimento para eles que servirão novamente de alimento a outros homens numa rotina inacabável.
A incorporação no discurso manguebitiano de signos presentes no imaginário da população recifense: a lama, o mangue, o caranguejo e a posterior re-significação destes proporcionando novas leituras, permite as vozes enunciadoras deste discurso a apropriação de um lugar privilegiado para o estabelecimento de uma proposta identitária como afirma Stuart Hall: as identidades se situam no espaço e tempo simbólicos[9], ou ainda como ratifica Muniz Sodré: a identidade não é nada substancial, mas uma continuidade lembrada – por mensagens, apelos, respostas – e reinterpretada[10].
Ciente de que uma cultura se aprende através dos valores e crenças expressados pelas ações diárias de seu povo, sua língua, os símbolos de seu ambiente visual, sua arte, mitos e música[11] ao reler: o Tropicalismo, os ritmos nordestinos, bem como outros movimentos e incorporá-los a sua sonoridade; os mangues e registrar sua antropização; o homem e promover uma simbiose com o elemento natural, o Mangue Beat apropria-se do centro do discurso na capital pernambucana, inaugurando e prescrevendo assim uma nova forma de ser para a música e pela música a partir do Manifesto Caranguejos com cérebro e das letras do CD Da lama ao caos de Chico Science & Nação Zumbi. Os outros dois álbuns desta mesma banda: Afrociberdelia e CSNZ[12] assim como o Manifesto Longa vida ao groove[13], pela continuidade e sedimentação das idéias presentes no primeiro álbum constituem acervo fundamental para elaboração deste estudo e por isso serão cuidadosamente abordados.
Da lama ao caos é um CD que trata já no título sobre o trânsito (im)possível do homem que sai do cárcere do ciclo do caranguejo – a lama – para o confuso espaço metropolitano – caos – para nele buscar o estabelecimento de novos parâmetros, de auto-definição e constituição de um local adequado ao desenvolvimento dos homens-decápodes.
Nesta diáspora promovida num espaço simbólico conturbado, os homens-caranguejos relocando e relocando-se buscam a formação de seu lócus e seu ego a partir das propostas presentes nas letras das músicas deste primeiro trabalho de Chico e da Nação Zumbi.
Este álbum traz em seu encarte o registro de diferentes linguagens: Cartoon, Correspondência epistolar, Manifesto e Letras de Música buscando criar nelas um ambiente propício para que o leitor, ou ouvinte, de alguma forma possa, a partir da representação que preferir, identificar-se com as novas propostas de ser e estar.
“Disseram que ele acordou, e quando foi escovar os dentes viu aqueles olhões e os pêlos nos braços”. Os quadrinhos que aparecem neste 1º álbum de CSNZ relatam a gênese kafkaniana de seres mutantes a partir da transformação de homens em caranguejos enquanto através de diversas cenas constatam as mudanças a que se propõe o Movimento Mangue: a regeneração do ambiente, do homem regional e de sua cultura.
A foto de um cartão postal impresso no 1º CD de Chico Science, descreve os mesmos fatos já abordados nos quadrinhos com o diferencial de utilizar uma linguagem espistolar. O registro singular que aqui faz-se presente é quanto a associação da figura dos homens-caranguejos a mais um problema para a cidade. Isto ocorre devido a imperceptibilidade de algumas pessoas às melhorias que estes seres intencionam trazer para a zona urbana, agora seu habitat.
Algumas canções enquanto encenam uma brincadeira pueril ou fato cotidiano convidam o ouvinte (ou mesmo leitor) a resgatar os costumes locais, conscientizar-se da possibilidade de melhorias a partir dele, discutir temas polêmicos como revolução, exclusão social e acima de tudo mobilizar-se para o acontecimento de melhorias. A Praieira, faixa do 1º CD de CSNZ, retrata bem este procedimento:
Eu piso onde quiser, você está girando melhor garota
Na areia onde o mar chegou
a ciranda acabou de começar, e ela é!
E é praieira! Segura bem forte a mão
O Manifesto Caranguejos com cérebro pretende legitimar o rompimento de uma estética cultural fragmentada e, até então desvalorizada da cidade-mangue e assim lançar o “novo” a partir das idéias que propõe, desconstruindo uma postura vigente, para o estabelecimento de outra. Ele é dividido em três partes: na primeira Mangue- o conceito como o próprio nome sugere há uma definição da representação dos mangues enquanto ecossistemas, valorizando sua fertilidade, diversidade e riqueza apesar de alguns inconvenientes que possa vir a gerar. A valorização desse elemento será essencial para sua tomada posteriormente como ponto de convergência das temáticas que o Movimento irá abordar.
Em seguida em Manguetown – a cidade constata-se a degradação do meio ambiente pernambucano, promovida pelo não inconstante aterramento de mangues e deslocamento de bairros em vistas da evolução urbana. Ora, a adoção do vocábulo mangue ante este cenário será sagazmente estratégico pelos discursos que este pode abrigar. Desta forma, sendo o discurso poder, ou o poder do qual queremos nos apoderar de acordo com Foucault, interessa-nos a eminência de um discurso identitário dessa multiplicidade de vozes que ainda podendo ser não intencional, faz-se presente.
Na última parte Mangue – A cena, há a constatação do espaço caótico urbano da capital pernambucana - quarta pior cidade do mundo segundo estatísticas internacionais[14]– e da necessidade de uma ação rápida para restaurar a auto-estima e o eu dos habitantes da cidade do Recife. Solução: Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife. Assim sugere o Manifesto propondo o Mangue Beat como instrumento revitalizador das forças da cidade.
A lama aparece no ideário manguebitiano sob dois aspectos: o primeiro referindo-se a um estágio negativo da produção cultural (de Recife) num momento anterior a instauração do Movimento e o segundo desprovendo este elemento de sua carga semântica relacionada a sujeira ou mácula, aparecendo inversamente como um elemento purificador e restituidor de forças, por assumir o status de elo entre os elementos deste Imaginário.
A identidade regional gerada no discurso dos manguezais gira em torno dum jogo imagístico: Nordeste, lama, mangue, caranguejo, antes lidos como vergonha ou subdesenvolvimento, mas agora incorporados ao discurso como traços legítimos da cultura local. Mesmo ocupando uma posição marginal no cenário urbano, devido a intransigência dos veículos de comunicação, O Mangue Beat traçará um movimento inverso fazendo com que devido a sua força e o carisma de Chico Science a grande mídia volte os olhos para seus frutos, sem contudo ao ser apreciados por esta ou ainda vincular-se a(s) gravadora(s) subjugar seus propósitos.
Quem quiser compreender, adentrar, ou mesmo divulgar esse fenômeno da capital de Pernambuco terá que lidar com um vocabulário impregnado de regionalismos e neologismos, o sotaque carregado demarcando o local de onde falam as vozes, um jeito singular de se vestir: chapéu de palha, óculos escuros e danças que simulam o andar do caranguejo, sendo forçado a uma negociação cultural onde pretensiona-se adquirir espaço sem ceder a exigências que desvirtuem a direção pretensionada por toda essa articulação no cenário musical popular.
“Cascos, caos, cascos, caos”. Ainda que a razão moderna seja incapaz ou inábil, em reconhecer, em legitimar aqueles objetos culturais em que ela, enquanto razão imediatamente não se reconheça, o discurso identitário manguebitiano difundir-se-á gradualmente desafiando esta razão moderna, alimentado por uma Antropofagia Psicodélica.
Entenda-se por Antropofagia Psicodélica uma devoração do outro por um processo mental que promove uma alteração e expansão da consciência crítica acionada pela música. Desta forma esta entorpeceria o indivíduo, não por uma castração mental, mas ampliando seu poder analítico pelo fornecimento de proposições, questionamentos e por uma indução a reflexões. Ela traz em si temáticas complexas para o âmbito da sonoridade pop: o etnocentrismo, a virtualização do mundo real através da informática, o comportamento humano enquanto ser individual e coletivo, a música revolucionária e a de protesto.
O questionamento: há fronteiras no jardim da razão? que aparece em uma das faixas do CD Da lama ao caos será respondido no segundo álbum de Science intitulado Afrociberdelia[15], que foi fundamental para a difusão do conceito da Antropofagia Psicodélica. Neste trabalho, Chico e seus companheiros, logo na canção de abertura, advertem: “Cheguei com meu universo / e aterrisso no seu pensamento / trago as luzes dos postes nos olhos / rios e pontes no coração / Pernambuco em baixo dos pés / e minha mente na imensidão”.
Viva a Zapata,
Viva Sandino,
Viva a Zumbi, Antônio Conselheiro,
Todos os Panteras Negras
Lampião sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia[16]
Revolucionar pela música. Com esse objetivo num tom quase messiânico a voz dos manguezais evoca desde personagens internacionais que foram ícones da luta contra as forças de opressão até mitos nacionais para estabelecer uma analogia entre o poder destes e o da música. Assim, assumindo uma postura de reação ante as amplas necessidades sócio-culturais da população recifense condena o poder persuasivo que calou, ou tentou calar estas vozes : “São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade”, convocando os habitantes da metrópole pernambucana para agregar seu discurso e promover um amplo debate sobre sua condição, ainda que por ora apenas no plano cultural.
“Um passo a frente e você já não está no mesmo lugar”. O Movimento Mangue Beat não é um neo-tropicalismo como alguns críticos insistem em afirmar. Caetano dizia no início do Tropicalismo, que o movimento o qual integrava era uma linha evolutiva dentro daquilo que João Gilberto criou, e nem por isso o Tropicalismo foi idêntico a Bossa Nova. Hoje, o Movimento Mangue, apesar de reler a Tropicália num processo absolutamente normal pois “ninguém pode renovar improvisadamente a própria sensibilidade. As células mortas, são misturadas as vivas”[17], e incorporar ritmos estrangeiros, tem uma evidente preocupação com a questão regional enquanto o Tropicalismo estava voltado para algo mais amplo, uma discussão nacional. Além disso o contexto sócio-político atual é completamente diferenciado do vigente na época dos tropicalistas, o que por si só já teria uma influência significativa na produção musical contemporânea tendendo a singularizá-la de acordo com José Ramos Tinhorão.
Ao suscitar um espírito coletivo em meio ao caos urbano na cidade do Recife, trazendo ressonâncias de ritmos, sons e da leitura de nomes que deram subsídios ideológicos para este acontecimento como: Josué de Castro, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre, entre outros, e verter estes Ecos da lama na confecção de um homem híbrido fundido a natureza: meio homem, meio decápode, o Movimento Mangue Beat promove uma discussão na capital pernambucana que não só confirma a força da Música (Popular) enquanto produto cultural como engendra propostas quanto ao (entre)lugar e o ego-recifense.
CASTRO, Josué de. Homens e Caranguejos. São Paulo: Editora Brasiliense S.A., 1967.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade; trad.: Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro . 3. Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1990.
PERRONE, Charles A . Letras e letras da MPB; trad.:José Luiz Paulo Machado. Rio de Janeiro: Elo Editora e Distribuidora Ltda, 1988.
SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e Modrnismo Brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas de 1857 até hoje. 3. Ed. Ver. E aum. Petrópolis: Vozes; Brasília, INL, 1976.
TINHORÃO, José Ramos. História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo: Ed. 34, 1998.
_____. Música Popular: um tema em debate. 3 ed. Ver. E amp. São Paulo: Ed. 34, 1997.
TRAVASSOS, Elizabeth. Modernismo e música brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
Discografia:
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. Afrociberdelia. Sony Music Entertainement (Brasil). Rio de Janeiro.
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. CSNZ. Sony Music Entertainement (Brasil). Rio de Janeiro.
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. Da lama ao caos. Sony Music Entertainement (Brasil). Rio de Janeiro.
[1] Trecho da Música Monólogo ao pé do ouvido do Cd Da lama ao caos de Chico Science & Nação Zumbi.
[2] Mítico-músico-pop, por serem figuras míticas do imaginário musical popular
[3] Banda que Chico Science fez parte antes de formar a CSNZ
[4] Banda que Fred 04 outro grande nome do Movimento, autor do Manifesto Longa vida ao groove ainda faz parte nos dias de hoje
[5] Trecho da entrevista de Chico Science realizada pela revista UP TO DATE.
[6] Termo criado pelos integrantes do Mangue Beat para se autodenominarem
[7] Escritas a princípio por Science.
[8] CASTRO, Josué de. Homens e Caranguejos.
[9] HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade; tradução: Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes
[10] SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros: identidade, povo e mídia no Brasil.
[11] Conceito de McFee e Degee encontrado no Ensaio: Multiculturalismo e formação da identidade cultural de Anna M. Kindler.
[12] Cd póstumo, em homenagem a Chico Science.
[13] Neste Manifesto também póstumo a Chico Science, há a ênfase da continuação do Movimento Mangue, lançado por ele, apesar da grande perda representada pela sua morte precoce.
[14] De acordo com o Manifesto este dado foi fornecido pelo Instituto de Estudos Populacionais de Washington.
[15] Síntese de África, Cibernética e Psicodelismo.
[16] Música Monólogo ao pé do ouvido do Cd Da Lama ao Caos de Chico Science & Nação Zumbi.
[17] Manifesto Técnico da Literatura Futurista